‘Guarulhos precisa de um plano municipal de transição energética’, diz Janete Pietá após participação na COP30

Em entrevista ao Radar, vereadora da Rede faz balanço das discussões na Conferência do Clima e explica projetos protocolados na Câmara voltado à área ambiental
Foto: Reprodução / Equipe Janete Pietá

Após 13 dias de negociação, a COP30 chegou ao fim com 29 documentos aprovados pelos 195 países que participaram da conferência. No entanto, não houve um compromisso claro sobre o fim da utilização dos combustíveis fósseis. Como a senhora avalia os resultados desta edição? No processo histórico, as coisas não ocorrem de uma vez. Primeiro, temos que reconhecer que ninguém acreditava que seria um sucesso a presença de tantos países — com a ausência, lógico, da Argentina e dos Estados Unidos. Segundo, ninguém mais pode negar que as mudanças climáticas estão acontecendo, inclusive os negacionistas do Brasil. Quanto aos combustíveis fósseis, os representantes do governo brasileiro, entre eles a ministra Marina Silva, sinalizaram que é necessário construir o “Mapa do Caminho” para superar o uso dessas fontes de energia, mas os países petrolíferos foram contra. Considero que saíram coisas muito importantes, como, por exemplo, o entendimento sobre os planos de adaptação. O verão está chegando e, com ele, as fortes chuvas que voltarão a alagar a nossa cidade. Por meio de planos municipais bem elaborados, Guarulhos pode captar recursos junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a fundos internacionais e até mesmo ao Fundo Clima, do Governo Federal, para a implementação. Falamos também do Fundo de Perdas e Danos — o mundo está começando a pensar em um financiamento para recuperar os estragos da crise climática. O local escolhido para a COP também foi muito importante — algo fantástico. Eles puderam ver o que é mata, o que é rio, o que é chuva. No entanto, podemos pensar se é preciso mudar a forma de conduzir as conferências. Hoje, se busca consenso, então não se pode chegar a conclusões quando há divergência.

As comunidades periféricas e racializadas estão entre as mais afetadas pelas mudanças climáticas. Como esse tema foi abordado e quais caminhos foram apontados para garantir atenção a esses grupos? As mudanças climáticas não atingem todos da mesma forma, por isso o Fundo de Perdas e Danos é tão importante. Quem mais sofre os impactos são as comunidades negras, principalmente as mulheres — muitas parlamentares feministas fomentaram esse debate na Cúpula dos Povos. A agricultura familiar, por exemplo, que produz o alimento que nós consumimos, é tocada por mulheres, predominantemente por mulheres negras. As comunidades prejudicadas pelas mudanças climáticas têm o direito de se recuperarem; para isso é preciso de um plano de adaptação. Importante pontuar que a conferência ainda não acabou: além dos resultados deliberados pelos países, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, continua nas negociações até a próxima edição. Inclusive, ainda existe a possibilidade de acontecer uma reunião com mais de 80 países, que foram a favor do Mapa do Caminho, para avaliar como, pouco a pouco, é possível eliminar os combustíveis fósseis e introduzir a utilização de energias limpas — eólica ou solares no caso do Brasil, por exemplo. Deve existir um processo de convencimento para que o Mapa do Caminho saia do papel — a gente não pode pensar na COP como um dia, é um processo.

Antes da conferência, a senhora destacou a importância de envolver os diferentes níveis do Legislativo nos encaminhamentos. Houve avanços por parte dos representantes legislativos, ou seja, medidas que saíram da COP e chegaram às cidades? As pautas abordadas na COP são discutidas por estadistas. Depois, as decisões são aprovadas pelo Congresso, no caso do Brasil. Agora, onde é que estão acontecendo os impactos das mudanças climáticas? Nas cidades. Por isso defendo a participação de vereadores e vereadoras. Foi entregue à Ana Toni, diretora-executiva da COP30, um abaixo-assinado solicitando a participação de parlamentares como ouvintes, mas com direito à voz — não com direito a voto: na COP, nada é votado; ou se tem consenso, ou os acordos não são firmados. Além disso, fiz contato diretamente com o ministro Jader Filho, do Ministério das Cidades. Será lançado o Projeto AdaptAÇÃO, pelo qual a pasta oferecerá assistência técnica para os municípios, além de recursos para geração de energia. Por isso, destaco a importância de Guarulhos elaborar um “Plano Municipal de Transição Energética”, principalmente no que se refere ao transporte público. Com a compra de novos ônibus elétricos, podemos, aos poucos, substituir a frota de ônibus movidos por combustíveis fósseis, que são a principal causa do aquecimento global. O governo federal disponibilizará recursos para as cidades mais bem organizadas, que se anteciparem nesse debate. Precisamos criar caminhos verdes e trabalhar para que a cidade seja menos quente. Já estamos iniciando projetos para ampliar o uso de energia solar, por exemplo. Além disso, devemos nos comprometer com a proteção das florestas, a arborização permanente e a preservação da Mata Atlântica, nosso bioma.

Pós-COP30, a senhora pretende, nos próximos meses, protocolar novos projetos? Pelo menos três já tenho. Em fevereiro, a Câmara deliberou um projeto de minha autoria — que agora está nas comissões — que reconhece o estado de emergência climática no município de Guarulhos. Essa medida é necessária para formalizar planos de adaptação, para conseguir verbas federais e internacionais, principalmente do BID, o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Nós estamos à beira de uma crise hídrica aqui em São Paulo, que também é reflexo das mudanças climáticas. Tenho um projeto de lei que busca preservar e recuperar nascentes da cidade de Guarulhos. Inclusive, critico o prefeito que destruiu as minas do CECAP para a realização da Guarulhos Fest Show. Nós temos que mapear as minas d’água e estudar como é possível tratar e reservar essa água para uma emergência.

Tivemos avanços em relação ao financiamento? Houve ampliação: os países ricos firmaram o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação dos países em desenvolvimento até 2035 — isso pode chegar a até US$1 bilhão. Meus projetos estão voltados para esse cenário. Além disso, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre foi muito bem aceito. Guarulhos ainda tem parte do seu território coberto por Mata Atlântica — do Cabuçu ao Água Azul — e pode ser beneficiado indiretamente. O Fundo fala sobre países, porém a elaboração de planos municipais de preservação da Mata Atlântica pode contribuir para a captação de recursos federais. É importante pensarmos como é possível utilizar a floresta naquilo que não a destrói. Eu conheci produtores de açaí, andiroba, cacau… que preservam a biodiversidade da floresta. Nós temos que aprender com os saberes indígenas e quilombolas, conhecer nossas ervas e matas, a riqueza farmacêutica da floresta.

De que forma a senhora vem conduzindo o diálogo com a base do governo para garantir a aprovação desses projetos? Eu coloquei nas minhas emendas impositivas um valor simbólico para a destinação de recursos para as seguintes ações: Implantação de Ações de Prevenção de Riscos e de Desastres nas Comunidades e nas Escolas; Capacitação e Aperfeiçoamento para o Enfrentamento das Situações de Risco e de Desastre; e Atendimento Humanitário para Situações de Risco e de Desastre. É pouco dinheiro, são pouco mais de R$ 16 mil, mas falei com o governo no sentido de que isso deveria constar — e, claro, se o governo quiser, pode ir atrás para buscar mais verbas.

Os membros da base têm recebido bem as propostas ambientais da senhora? No dia em que voltei, fui aplaudida — fiquei impressionada. A base precisa compreender seu papel parlamentar, não querer ser vice-prefeito ou prefeito. Não dá para concordar com tudo; isso pode gerar problemas no futuro. O Legislativo existe justamente para apontar ao Executivo onde estão os problemas. Nosso trabalho é sensibilizar o Executivo a se envolver de fato com os desafios da cidade. Depois que a tragédia acontece, não adianta lamentar — já foi. A prevenção é fundamental, inclusive na área ambiental. Sou uma pessoa otimista; se não fosse, já teria desistido. E é importante reconhecer o presidente da Casa, Miguel Martello, que ao menos ajudou com o valor da passagem. O resto eu paguei sim com o meu salário, porque considero superimportante.

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