Do começo de janeiro para cá, qual o balanço que o senhor faz desse ano de 2025 na Câmara?
Acho que o balanço tem que levar em consideração uma nova forma que eu não tinha visto ainda na Câmara Municipal. Alguns parlamentares não têm uma preocupação sobre necessariamente a qualidade dos debates ou dos projetos que tramitam aqui. Há, sim, uma preocupação na construção de imagens que levem a engajamento nas redes sociais. É muito triste você ver às vezes um colega parlamentar utilizando a tribuna e falando palavrão para poder gerar um recorte e dar engajamento, ofendendo uma pessoa ou ridicularizando a morte, por exemplo, de uma artista como a Preta Gil, em um processo de câncer bastante doloroso para a família e para ela própria. A pessoa vai para a tribuna e faz uma comemoração do estágio da doença e uma comemoração da possibilidade de morte de uma pessoa. É um momento triste da Câmara, porque percebo também que esse tipo de atitude mais agressiva acaba inibindo os vereadores de primeiro mandato a entrarem nos debates, porque não querem ter as suas imagens expostas de maneira jocosa, de maneira negativa em vídeos que são recortados. Então, o balanço que faço é de uma legislatura que trouxe renovação, trouxe novos parlamentares, mas parlamentares com vício vindo de outras disputas, sobretudo no Congresso Nacional, em Assembleias Legislativas, onde esse comportamento se transformou em um método. E isso é grave.
O senhor acha que, para a população, a imagem toda da Câmara é ruim ou há uma separação do joio e do trigo?
Não, infelizmente acho que quando se tem aqui uma confusão, ameaça de agressão física, essa imagem negativa vai para todo o conjunto da Câmara. Até porque, algumas figuras que são vereadores se comportam na rua como se não fossem. São os fiscais da população. Eles saem do problema, atuam como se não fossem vereadores. Quando ele faz uma visita, quando ele faz uma intervenção, dá a impressão de que é um corpo externo, não alguém que participa e tem participação e responsabilidade pelas votações na Câmara. A imagem negativa pega para todo mundo.
O senhor acha que a Câmara errou ao não cassar o mandato do vereador Kléber Ribeiro ou não houve motivo para isso?
Olha, acho que a Câmara errou. Não vou nem entrar no termo cassar. A Câmara errou em não tomar nenhuma posição, porque não suspendeu, não advertiu, não cassou, não fez nada. Errou. E o erro nós estamos pagando até hoje, porque ele continua utilizando a tribuna para proferir palavras do tipo “cala a boca”, “o presidente da República é um bosta”. Ele continua desrespeitando todo mundo como se aqui fosse o quintal da casa dele. Mas estamos na Câmara Municipal de Guarulhos. Então, a Câmara errou feio. Eu não diria caçar. Eu colocaria o seguinte: a Câmara errou ao não tomar nenhuma atitude, porque na prática foi isso. Eu elaborei uma proposta que está nas comissões para que isso não volte a acontecer, porque temos que ter uma Corregedoria da Câmara, que faça o seu papel como há em outras cidades. A Assembleia Legislativa, por acaso, é um lugar de esquerda? Não é. Mas lá as pessoas perceberam que alguns deputados excederam, passaram de qualquer possibilidade defensável. O que fizeram lá? Deputados estaduais foram cassados. Volto a dizer: deputados estaduais, em uma Assembleia Legislativa extremamente conservadora, foram cassados. Aqui vai ficar pior, porque se não tem punição, quem está cometendo atitudes contra o decoro vai continuar e vai aumentar essa temperatura, tendo em vista a aproximação do momento eleitoral.
Qual o grande desafio que o senhor, na condição de líder da oposição, enfrentou ao longo desse ano de 25?
Primeiro, perder tempo nos debates internos. Isso nos tirou tempo para poder discutir os grandes temas da cidade. Minha grande dificuldade é não deixar esses parlamentares aqui, que se auto intitulam representantes da extrema-direita, fazerem as suas falas e ficarem sem respostas. Desde que estou aqui, sempre que fomos chamados para o debate, nunca corremos, nunca deixamos de fazê-lo. E não seria diferente agora, principalmente nesse momento, que a gente faz a nossa parte de esclarecer para a população que isso não é a melhor forma de se debater e discutir os problemas da cidade.
Quais são os grandes temas da cidade?
O primeiro assunto, falando enquanto líder da oposição, é que a cidade vai continuar um período sem ter um projeto de médio e de longo prazo. E quando falo de projeto, não estou falando de projeto político-partidário, não estou falando de projetos individuais. Estou falando de projeto de cidade mesmo. Posso citar aqui alguns exemplos. Nós temos uma secretaria que cuida do desenvolvimento econômico da cidade. Qual o relatório nós tivemos acesso para dizer para onde a cidade está crescendo? Quais as perspectivas? Vamos ter uma mudança de chave para a questão das empresas de tecnologia ou vamos avançar em uma cidade que se transforma cada vez mais em centros comerciais localizados nos bairros que ganham muita força? Qual é o caminho? Isso leva a fazer previsões de investimento público, de melhorias que passam por todas as áreas, educação, saúde, segurança pública, manutenção, zeladoria, enfim. Posso citar um outro exemplo. Nós temos a cidade com problemas históricos da questão do trânsito e é só se lamenta o tempo inteiro. Será que não há nada para ser feito? Será que não tem nenhuma possibilidade de mudanças? Nós temos regiões da cidade onde um trabalhador sai de casa às 4h30 da manhã para chegar no seu local de trabalho às 7h30; depois quando ele retorna, sai do trabalho às 17h30 e chega em casa às 21h. São estes os problemas que gostaria de debater. E já antecipo: não acredito que ninguém, nem na Câmara, nem no governo, nem na Prefeitura tem uma solução para isso. Mas você tem que ter humildade e reconhecer que não tem a solução, mas você é um agente que pode buscar no diálogo, na conversa, encontrar estes caminhos.
Temos diversas demandas na área da educação: qualidade da merenda, atuação dos professores eventuais, falta de vagas na creche, etc. Considerando os principais gargalos, qual o principal problema a ser enfrentado? O governo atacou isso?
Eu gostaria de dar um dado: a cidade de Guarulhos tem o pior IDEB da região do Alto Tietê. A partir daí a gente começa a explicar o que está embaixo. Esse baixo índice de desenvolvimento da educação básica na cidade, que é medido e verificado a partir do que está sendo produzido, assimilado, mostra que precisamos sair dessa situação. A primeira coisa que acho que não foi feita é isso. É pegar o IDEB e pôr na frente do secretário de Educação todos os dias. Ele tem que sentar na mesa de trabalho dele, tem que ter um cartaz na frente dele com o IDEB de Guarulhos e com o IDEB das nossas cidades aqui do entorno do Alto Tietê para dizer ‘tenho que resolver isso aqui’. E como é que resolve? Não resolve o IDEB se a gente continuar negando o pagamento do piso nacional do magistério, que é o que está acontecendo. Guarulhos não paga o piso na tabela. Nós não podemos prever que por conta de uma disputa política não se entregue o uniforme para as crianças. Quando o prefeito ganhou a eleição? Final de outubro. Era possível dizer ‘olha, nós não vamos conseguir entregar em fevereiro porque tomamos posse em janeiro, mas vamos preparar algo’. Mas a gente vê coisas andando mais rápido na Prefeitura com outra celeridade. Por que não na Educação? Nós não podemos ter uma situação em que 60% dos diretores de escola são nomeados, não são concursados. Isso não é questão econômica, porque o concurso é relativamente fácil de resolver. É opção política. Manter 60% de diretores comissionados é uma opção política.
Desde o começo do ano, a gestão Lucas tem feito a entrega de novos equipamentos de saúde, seja através de revitalizações, seja a partir de novos espaços. Em paralelo, a cidade começou 2025 com um déficit de 300 médicos, num cenário em que já havia sobrecarga para o atendimento da população. Como avalia o quadro atual na Saúde?
Acho que é grave a saída dos 300 médicos em uma tacada só no final do ano passado, mas ele não explica tudo. Por que digo isso? Vamos pegar o que está sendo feito hoje. Estão revitalizando, pintando as unidades, fazendo novas fachadas e tal. Pintura de um equipamento de saúde… Não vou nem chover no molhado e dizer que é obrigação, mas não é meio óbvio? Não é meio óbvio que o pneu de uma viatura do SAMU não deve estar careca? Acho que é meio óbvio. Não dá para inaugurar pneu, trocar de pneu do SAMU, por um motivo óbvio: é ridículo. Você fazer entrega de pintura é tão ridículo quanto entregar quatro pneus novos para uma ambulância. Não vou nem vou dizer que é paliativo. Acho que as novas lideranças que se elegeram, sobretudo no campo da direita, eles trazem o seguinte conceito: não preciso fazer tudo, preciso ter uma imagem. Essa imagem a gente multiplica, como se ela estivesse em todos os lugares acontecendo. Sinto que a cidade está na fase da publicidade digital com pouca efetividade no dia a dia da vida das pessoas. E quando falo isso, não faço um processo de oposição baseado em nenhum tipo de rancor, em nenhum tipo de agressão, seja pessoal, familiar, não é a minha forma de agir. Mas acredito muito que temos que fazer um movimento de apontar essas coisas. Outro exemplo: na audiência do Orçamento para a Saúde, o servidor que veio à Câmara nos apresentou R$ 15 milhões de investimentos para a saúde. É nada. Absolutamente nada. Só uma unidade que o governo federal está mandando para cá custa R$ 5 milhões. A Prefeitura está destinando R$ 15 milhões para tudo o que é necessário para a Saúde.
Por que Guarulhos precisa ou merece ter o Edmilson Souza como representante da cidade na Alesp?
Primeiro, existe um desequilíbrio de forças na cidade. A minha pré-candidatura a deputado estadual existe porque nós temos aqui um número de pessoas que querem votar em candidaturas da esquerda. Era melhor que houvesse unidade. No mundo ideal, a esquerda na cidade deveria se unificar em torno de ter uma candidatura a federal e duas candidaturas a estadual, para podermos fazer os dois na Assembleia, fazer um na Câmara dos Deputados, mas o mundo ideal tem as polêmicas e tem as justas diferenças entre partidos. Eu sou do PSOL, tenho os companheiros do PT que eu admiro muito, mas o principal argumento para minha pré-candidatura é o seguinte: equilibrar o jogo. Eu não me sinto representado pelos deputados que estão na Assembleia. Por motivo simples: não sei o que eles pensam e por uma ausência total na cidade. O que pensam os nossos dois representantes na Alesp? Não sei. Nem durante a campanha eleitoral, quando os dois foram candidatos à Prefeitura, eu consegui descobrir, porque eles não falavam coisa com coisa. Eles não conhecem a realidade da cidade. Minha disputa e a minha pré-candidatura é para que haja um equilíbrio de força e para que a gente tenha um mandato de deputado que seja não próximo da cidade, mas que seja da cidade, para que consigamos debater esses temas com a experiência já tivemos no Executivo e agora no Legislativo. Há uma faixa grande que precisa ser ocupada por esse campo de esquerda, porque hoje temos uma sub-representação na Assembleia Legislativa. Nós vamos ter um embate de novo entre direita e esquerda. Como nós vamos ter uma polarização, eu também quero ser candidato a estadual, porque nós queremos saber quem que é do time do Lula aqui. Eu sou do time do Lula. Estou no time do Lula. O PSOL ocupa ministérios importantes no time do Lula. Nossa principal liderança nacional, que é o Boulos, vai estar à frente desse processo, já está hoje como secretário-geral da Presidência. Diante disso, o PSOL em Guarulhos não ter uma candidatura para representar isso é muito ruim. Nós temos que assumir as nossas responsabilidades até para poder ajudar que a nossa cidade entregue um resultado favorável e satisfatório para o presidente Lula, assim como para governadores e senadores que vão estar juntos na mesma chapa com Lula.