Na semana em que Guarulhos celebra seus 465 anos, uma das mudanças mais significativas na mobilidade da região entrou oficialmente em operação. Desde sexta-feira, 6 de dezembro, o sistema de pedágio eletrônico free flow começou a cobrar motoristas no trecho metropolitano da Via Dutra — justamente o mais movimentado de toda a rodovia e aquele que corta Guarulhos ao meio, funcionando há décadas como uma via urbana e uma rodovia de alta circulação.
A autorização final da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) saiu em 26 de novembro. Com ela, a concessionária RioSP (Motiva) iniciou a cobrança por quilômetro rodado nas pistas expressas, sem praças físicas. Antenas instaladas em pórticos identificam automaticamente os veículos e calculam o valor conforme o trajeto percorrido — apenas quem optar por usar essa pista paga; as pistas marginais continuam gratuitas.
Cobrança imediata, multas suspensas e sistema em adaptação
A Tarifa Básica de Pedágio Quilométrica (TBP) estabelecida pela ANTT é de R$ 0,13720 por quilômetro. O valor final pode variar conforme dia da semana e horário — horários de pico podem tornar a tarifa mais alta, de acordo com o fluxo de veículos anunciados.
Embora a cobrança esteja valendo desde o início, a aplicação de multas está suspensa. Uma liminar do Ministério Público Federal (MPF) impede que motoristas sejam penalizados até que o sistema demonstre confiabilidade, evitando falhas como leitura duplicada ou identificação incorreta de placas. A RioSP confirmou que nos primeiros seis meses não haverá multa.
Quem possui a chamada tag terá o valor debitado normalmente. Quem não tem o dispositivo também precisa pagar — o pagamento deve ser feito em até 30 dias. Mesmo sem multa, a tarifa gera débito administrativo, e o não pagamento pode resultar em cobrança formal. Procurada pelo Radar, a concessionária enfatizou: “A não aplicação da multa não isenta o cliente do pagamento da tarifa.”
Quem usa a Dutra todo dia — e vive Guarulhos — será o mais afetado
Guarulhos soma cerca de 1,349 milhão de habitantes estimados para 2025, segundo dados do IBGE. Entre os bairros mais populosos estão:
- Pimentas — o mais populoso da cidade, com cerca de 156.748 habitantes no censo de 2010, e hoje estimado em mais de 168 mil moradores.
- Bonsucesso — antigo perfil industrial e logístico, hoje reforçando sua vocação como área residencial e de serviços.
A Dutra funciona como acesso direto para muitas dessas regiões e bairros adjacentes, sendo utilizada diariamente por moradores que trabalham em São Paulo ou que dependem da rodovia para deslocamentos urbanos. Com o free flow, esse perfil urbano-rodoviário expõe residentes a um novo custo fixo de deslocamento, impactando diretamente famílias e trabalhadores de baixa e média renda.
Marginais seguem gratuitas, mas…
Um ponto positivo já confirmado é que as pistas marginais da Dutra continuarão gratuitas. Quem não quiser pagar ou não tiver a tag pode usar a via marginal gratuitamente, como era antes da cobrança — essa é uma prática comum entre moradores dos bairros cortados pela rodovia, que usam a Dutra como via urbana.
Mas a decisão de optar pela via marginal implica em maior risco de trânsito lento nos horários de pico, além da dificuldade de acesso rápido. Para quem vive na zona leste ou nas áreas de Bonsucesso, Pimentas ou regiões próximas, o free flow representa um dilema: pagar para garantir fluidez ou usar uma via gratuita, mas com potencial de lentidão e desconforto?
Potenciais consequências regionais: logística, fretes e mobilidade urbana
Guarulhos é um polo logístico e industrial importante, com numerosos depósitos, transportadoras e centros de distribuição — muitos localizados às margens da Dutra e das marginais que a cercam. Com a instituição da cobrança, deve aumentar o custo para as empresas de transporte; os valores cobrados em fretes devem subir; caminhões e veículos de carga provavelmente migrarão para as marginais, aumentando o tráfego urbano e o desgaste das vias locais. Por fim, passageiros de aplicativos, trabalhadores em regime de turno e quem faz deslocamentos diários entre Guarulhos e São Paulo serão diretamente impactados no custo e no tempo de suas viagens. Além disso, a circulação intensa e o perfil de “cidade dormitório” elevam a relevância da Dutra no cotidiano de milhares de pessoas.
Simulador oficial já está no ar
O simulador disponibilizado pela RioSP/Motiva permite ao motorista conferir valores por trecho, horários e categorias de veículo. Ele também informa, em tempo real, eventuais alterações de tarifa conforme o fluxo.
O que pode mudar nos próximos meses
- A liminar do MPF não tem prazo para cair — o que mantém a “fase orientativa”.
- A ANTT poderá revisar os valores e regras de tarifação ao fim dos seis primeiros meses.
- Novas ações judiciais podem ser apresentadas, se houver falhas de leitura, cobranças duplicadas ou erros de identificação — o que exigirá atenção especial da concessionária.
Chegou a modernização — mas o desafio de proteger o direito de ir e vir permanece
No aniversário de 465 anos, Guarulhos recebe o free flow como símbolo de modernidade. Mas a cidade carrega uma história de deslocamentos constantes, desigualdades urbanas, bairros populosos e uma forte dependência da Dutra como via essencial para circulação, trabalho e acesso. Quando a mobilidade diária vira pedágio, quem mais sente o impacto é quem já convive com tempo, trânsito e economia apertada.
Com a cobrança ativada, o debate ganha contornos de planejamento urbano: é possível cobrar por uma via que cumpre função urbana, e não apenas rodoviária? Quem garante que o custo adicional não vai pesar sobre os mais vulneráveis?
O Radar de Notícias seguirá acompanhando os desdobramentos nas próximas semanas, ouvindo especialistas, autoridades e usuários para esclarecer cada etapa desse novo cenário de mobilidade na cidade.